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| Projeto Uerê | ||||
As
casas são praticamente coladas umas nas outras. As ruas são
estreitas. Não há árvores. Perto, na Baía de
Guanabara, grandes canais de esgotos deságuam. O calor intenso mistura-se
a mosquitos e mau-cheiro. São quase 130 mil pessoas, distribuídas
em 17 comunidades, lutando com baixos salários, preconceito, habitação
precária, falta de escola para as crianças, alcoolismo, a
ação muitas vezes violenta da polícia e as disputas
entre os grupos criminosos locais pelo controle do tráfico de drogas.
Estamos a apenas alguns minutos das belas praias do Rio de Janeiro, na Avenida
Brasil, Favela da Maré.
A Maré, no entanto, não tem só problemas. Duas casinhas coloridas, entre as quais crianças correm e brincam, mostram que também há soluções. Nas casas, funciona o Projeto Uerê, criado pela educadora Ivone Bezerra de Melo. Na língua dos índios brasileiros, "uerê" quer dizer criança. Ali, aproximadamente 200 crianças da Maré recebem orientação escolar, atenção, carinho e principalmente, cuidado. Uma idéia do tamanho de uma semente
Ivone chega de manhã bem cedo, junto com sua assistente, Luciana. Salta do carro e as crianças logo a rodeiam. O carro é um importado vermelho: o único sinal de que Ivone também faz parte de um mundo bem diferente da favela. Educada na Sorbonne, esposa de um empresário carioca, moradora da Zona Sul, Ivone foi ao encontro de uma realidade bem diferente da sua. Foi uma das primeiras pessoas a lutar, desde o início dos anos 80, para sensibilizar a sociedade sobre os terríveis problemas que empurravam para as ruas da cidade cada vez mais crianças. Mais do que falar, foi encontrá-las, trabalhando com elas diretamente nas ruas, até embaixo de viadutos. Em 1992, ela trabalhava com um grande grupo de crianças na rua, sob um viaduto. Quando a prefeitura decidiu removê-la do local onde atuava, Ivone conseguiu, em troca, a doação de um imóvel, em uma das comunidades de onde muitas delas saíam: na Favela da Maré. Nascia assim o Projeto Uerê. Olho no olho do dragão A sala parece pequena para tantas crianças. Um voluntário as ajuda em algumas tarefas, enquanto esperam pela chegada de Ivone. Tudo é muito rústico. Nas paredes, frases e desenhos alegres, incentivos. Na outra casa, uma turma de adolescentes também já está trabalhando com Carlos, o outro professor. Os rostos alegres das crianças felizmente não mostram o que passam no dia-a-dia. São histórias difíceis de repetir. "Essas crianças não recebem nada do Estado. Suas mães são bêbadas, drogadas" frisa Ivone. O estupro é comum. Ela aponta uma linda e sorridente menina, de cinco anos talvez. Estuprada pelo padrasto. Outra menina, de uns dois anos, chora baixinho, deitada no colo da mãe. Traz uma bala irremovível na cabeça, vítima de uma ação desastrada da polícia na favela. A guerra entre as facções criminosas também faz parte do dia-a-dia infantil na favela. Bem próximo às casas do Uerê, por exemplo, há uma rua que não deve ser atravessada. Pertence a outra facção. Na Vila Olímpica, do outro lado da rua, um raro espaço de lazer no local, a mesma coisa. "Crianças de cá não podem entrar lá, porque são espancadas." Parte do trabalho de Ivone é, algumas vezes, negociar vidas. Como a de um menino que roubou um cavalo, mas que teve o azar deste ser de um dos "chefes" locais. Ia morrer e pediu socorro à educadora. Lá foi ela, conversar com o chefe, com os fuzis em volta. Salvou-o. A história é quase sempre a mesma: a lei é outra. O trabalho do projeto, dessa forma, também se adaptou, seja na convivência com o crime, como no modo de lidar com as crianças. Na sala de Ivone, as janelas e portas são abertas. Cada um entra e sai quando quer. Quase ninguém sai. Alguns aparecem, se aproximam. Às vezes têm um ar meio aéreo, pelo uso de drogas. Ficam nas janelas, olhando. Um dia, aceitam o convite para entrar. Há carinho, contato físico. Todos os que chegam recebem alguma atividade. Alguns jogam, outros escrevem, outros calculam, outros lêem ou colorem. No grupo com que Ivone trabalha diretamente, o nível escolar em geral é tão baixo que na verdade aquela turminha acaba sendo praticamente a única formação escolar real para as crianças. Uma menina de quase dez anos - na idade em que algumas crianças de classe média já lêem na Internet - luta duramente para formar sílabas com um joguinho de alfabeto. "Ela está há três meses aí", diz Ivone. "Mas vai conseguir." Um outro menino, um pouco maior, senta ao lado da menina. "Este estava assim antes", acrescenta. O menino escreve, certinho. Carlos: um caminho bem conhecido
Enquanto
isso, na outra casa, Carlos Henrique, 22, continua seu trabalho com crianças
maiores, também com reforço escolar. Como outros professores
no Brasil, Carlos precisa ter outros trabalhos: além da Maré,
onde trabalha há três anos, é professor também
em um presídio e em uma instituição para menores
infratores da lei. K., o voluntário que ajuda Ivone no projeto, acrescenta: "Não há criança perdida. As crianças são violentas porque são violentadas." K. é senegalês, tem 37 anos e faz o Doutorado em Sociologia. Apesar disso, sua visão do problema é bem simples: embora o Brasil seja um país até rico, ainda mais se comparado à África, a pobreza é grande parte do que afeta as crianças. "Em um feriado prolongado, por exemplo, vejo que elas vão para a rua, para outros lugares da cidade. Para não passar fome, porque não há comida em casa. Os meninos são desnutridos. A miséria é brava." Ele acrescenta: "E tem cor." Mexer no sistema A manhã termina. Todos ajudam a servir a comida do almoço. Este é um dos aspectos interessantes do projeto, que tem por princípio ter uma estrutura pequena e enxuta. Todos ajudam nas tarefas. Todos os funcionários acessam a contabilidade e sabem fazer lançamentos. As contas ficam disponíveis pela Internet para quem quiser ver. Todos sabem o salário uns dos outros e administram o dia-a-dia juntos. Assim, embora sejam apenas três funcionários e mais alguns voluntários para quase duzentas crianças, tudo parece funcionar.
Ivone, depois da aula e de ajudar no almoço, é uma das que varrem o chão do salão. Em qualquer tarefa, no entanto, atende as crianças sempre em primeiro lugar. Sempre olho no olho. Não pára. Como não parou na denúncia do massacre da Candelária, quando oito crianças de rua foram assassinadas por policiais. Ou quando fez seu corajoso depoimento para o documentário sobre a tragédia do Ônibus 174, no Rio de Janeiro. O documentário conta a história de um de seus antigos alunos, um menino contemporâneo dos que morreram na Candelária. Órfão, ex-menino de rua, sobrevivente de uma longa história de abandono, desestruturação familiar, miséria e violência, Sandro Nascimento foi surpreendido dentro de um ônibus por um carro de polícia. Para tentar escapar, decidiu usar os passageiros do ônibus como reféns. Portava um revólver velho. Foi cercado. As negociações, tensas e confusas, duraram todo o dia e foram vistas pela TV, por todo o país. Quando decidiu finalmente sair do ônibus com uma refém, Sandro foi rapidamente dominado. Durante a ação, a refém com que saiu do ônibus morreu, ao ser atingida por um disparo de um policial. O ex-menino de rua terminou assassinado logo depois, a caminho da prisão, dentro da própria viatura policial. No Uerê, as crianças se despedem. Neste dia, Ivone ao sair da favela irá para a Ordem dos Advogados do Brasil, lutar por auxílio no caso da menininha que traz uma bala alojada depois de um tiroteio. "É preciso ter consciência de que o mundo, com essa desigualdade, irá sempre gerar jovens agressivos. E isso quer dizer guerra". Ela conclui: "Ajude o vizinho. Só assim se mexe no sistema." Veja mais Brazilkids |
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