A Bordo e o Bordado

A abolição da Escravatura deixou ex-escravos e seus filhos abandonados à própria sorte. Apesar da vida dura e dos castigos, alistar-se no serviço militar - ou aceitar o recrutamento forçado que a polícia fazia para "limpar" as cidades - eram possibilidades para conquistar algum valor e maior liberdade.

Embora filho de ex-escravos e negro, João Cândido não foi forçado a tornar-se marinheiro. Entrou aos 14 anos para a Escola de Aprendizes, com o apoio de um Almirante, Alexandrino Alencar (mais tarde Ministro da Marinha e seu comandante no navio Riachuelo), seu conterrâneo. Embarcou aos quinze anos de idade, viajando pela Europa, Estados Unidos, Buenos Aires e Montevidéu.

Na Marinha, a maioria dos marinheiros era de negros bastante pobres, muitas vezes recolhidos das ruas no recrutamento forçado, ganhando baixos soldos, com poucas folgas. Para os oficiais, brancos e orgulhosos de seu "sangue limpo", os castigos pareciam a única maneira de controlar os marujos.

Segundo o historiador José Murilo de Carvalho, João Cândido Felisberto não era santo: negro alto, forte, capoeirista, chegara a ser rebaixado pelas lutas com outros marinheiros, embora conste que nunca fora chibateado. Em 1910, ainda era semi-analfabeto: lia mas não escrevia.

Naquele ambiente difícil, no entanto, João impunha-se e, marinheiro por vocação, era até considerado pelos oficiais. Ganhou fama de bajulador, mas conquistou ao mesmo tempo efetiva liderança entre os marujos.

Tinha também a fama de ser homem de bom coração e camarada. O achado, anos depois, de bordados em tecido que fez enquanto estava na prisão - "A Despedida do Marinheiro" e "Amor" - e que hoje se encontram no Museu Tomé Portes del Rey, em São João del Rey (MG), mostra a sensibilidade de um herói que era, acima de tudo, humano.

  Os Bordados "O Adeus do Marujo" e "Amor", feitos por João Cândido na prisão