A prisão
João Cândido foi transferido na véspera de Natal de 1910 para a prisão da ilha das Cobras com mais 17 companheiros. Os 18 presos foram jogados em uma cela recém-lavada com água e cal. A cela ficava em um túnel subterrâneo, do qual era separada por um portão de ferro. Fechava-a ainda grossa porta de madeira, dotada de minúsculo respiradouro. O comandante do Batalhão Naval, capitão-de-fragata Marques da Rocha, por razões que ninguém sabe ao certo, levou consigo as chaves da cela e foi passar a noite de Natal no Clube Naval, embora residisse na ilha.
A falta de ventilação, a poeira da cal, o calor, a sede começaram a sufocar os presos, cujos gritos chamaram a atenção da guarda na madrugada de Natal. Por falta das chaves, o carcereiro não podia entrar na cela. Marques da Rocha só chegou à ilha às oito horas da manhã. Ao serem abertos os dois portões da solitária, só dois presos sobreviviam, João Cândido e o soldado naval João Avelino. O Natal dos demais fora paixão e morte.
O
médico da Marinha, no entanto, diagnosticou a causa da morte como sendo
"insolação". Marques da Rocha foi absolvido em Conselho
de Guerra, promovido a capitão-de mar-e-guerra e recebido em jantar pelo
presidente da República. João Cândido continuou na prisão,
às voltas com os fantasmas da noite de terror. O jornalista Edmar Morel
(1979, p. 182) registrou assim seu depoimento pessoal: "Depois da retirada
dos cadáveres, comecei a ouvir gemidos dos meus companheiros mortos,
quando não via os infelizes, em agonia, gritando desesperadamente, rolando
pelo chão de barro úmido e envoltos em verdadeiras nuvens da cal.
A cena dantesca jamais saiu dos meus olhos."
(com base em artigo de José Murilo de Carvalho)
A Ilha das Cobras - Rio de Janeiro
